Às 16h45 de hoje, Belém será palco de um confronto épico, fruto de rivalidade há gerações: o jogo entre Brasil e Argentina, pela decisão da Copa Roca de Futebol. E, para atiçar esse clima de antagonismo, mas de uma forma bem humorada, o Caderno VOCÊ convocou um brasileiro e uma argentina para um embate de opiniões. A ideia foi fazê-los eleger, entre música, cinema, culinária e arquitetura, quais as melhores coisas de cada país e em especial da capital Buenos Aires e da nossa metrópole paroara, Belém.
O DJ, radialista e produtor Patrick Torquato, 32, aponta a música feita na Argentina como algo a ser descoberto. “Atualmente, deve-se ouvir a nova cumbia eletrônica feita por DJs e produtores, que dá um ar moderno à cumbia tradicional. Tem bandas e artistas que misturam a tradição do tango a outro elementos, o que é uma das coisas mais interessantes por lá, fora isso eles têm uns 40 Roberto Carlos e bandas jovens que fazem o mesmo rock farofa com as paupérrimas influências de Stones e The Who”, resume.
SONS e CIRCO
Patrick acredita que o brasileiro conhece pouco os sons que são feitos no país vizinho, fato que ele agrega à colonização dos hits anglo-americanos e da própria imensidão e diversidade sonora do Brasil. “Belém ainda tem contato com os ritmos latinos e caribenhos desde os anos 40 e 50, mas, para boa parte das pessoas, a música dos hermanos não passa de dois ou três nomes acessados pelo grande público”, acrescenta Patrick.
Ele é natural de Aracaju e, apesar de hoje viver em Recife, passou um longo período morando em Belém e viajando para diversos lugares do mundo, como a capital argentina, para onde voltou este mês. Lá, Patrick participou do “mês do Brasil” no país vizinho, tocando ao lado da banda Do Amor e de novíssimos nomes da música brazuca, como Lucas Santtanna, Tulipa Ruiz e Tié. Totalmente gratuita, a programação está agitando a cidade portenha, com muita música, cinema, literatura, teatro, gastronomia e circo.
A atriz, pedagoga, professora e artista circense Virginia Abasto, nasceu no país vizinho durante o inverno de 1979, na província de Entre Rios. “Lá eu estudei balé, jazz e depois virei esportista, fazia ginástica aeróbica. Quando fui conhecendo os outros países e vim a me fixar aqui [Belém] foi que me tornei mambembe, malabarista, clown, acrobata”, citou Virginia, enquanto fazia uma performance no trapézio durante o treino para as apresentações da Cia. Nefesh, que fundou ao lado do marido, o paraense Joelson Sousa.
Para ela, que vive em nossa calorenta e úmida capital há 11 anos, as artes cênicas no Pará têm grande potencial na região, o que falta é apoio. “Eu sou saudosa da Escola Circo, que infelizmente acabou, mas continuo produzindo espetáculos circenses e tem uma geração nova que se interessa pelo circo, o que me alegra muito. Eu sigo pesquisando e fazendo mestrado em artes sobre os grupos de circo daqui, buscando que essa arte se desenvolva mais na região”, frisa Virginia.
Apesar da formação circense, ela se interessa por fazer e assistir ao teatro e ao cinema produzidos aqui. “Gosto de grupos como o Lume, de Campinas, e daqui do Entreatos, In Bust, Palhaço Trovadores, todos grupos que estudam o ofício e fazem montagens bem regionalizadas, o que é ótimo, já que ‘Amazônia’ é a palavra mais falada no mundo”. Quanto à sétima arte, as novas propostas de cinema com esse olhar amazônico, mas com apelo global, também interessam a Virginia, em especial o trabalho de Fernando Segtowick.
CINEMA SULAMERICANO
“Tenho acompanhado o processo dele e, desde o ‘Dias’, ele vem conseguindo desenvolver uma filmografia consistente, por isso acho muito bons os trabalhos dele”, acrescenta.
Já Patrick admira a alta qualidade de interpretações e as boas montagens nos filmes argentinos. “É um cinema de grande qualidade, tem filmes interessantes que inclusive já ganharam Oscar de melhor filme estrangeiro. Lá se fala que se produz muito teatro e se estuda muito psicologia e que isso seria um reflexo da histeria esquizofrênica de uma cidade/Estado, pois Buenos Aires possui cerca de 47% da população total da Argentina, ou seja, meio país mora em apenas uma cidade”, esclarece o DJ.
Em Belém, Virginia se sente muito bem adaptada e feliz numa cidade que considera bonita e cheia de riquezas arquitetônicas e culturais. “Acho que o que falta é mais valorização da cidade, conservarem, manterem limpa. Eu amo calor e não sinto falta do frio, e a chuva aqui sempre vem para refrescar”, explica.
Para Virginia, a arte tem que ser feita para o público buscando sempre a reflexão, como fazem os artistas visuais locais por meio de suas performances. “A cultura daqui é muito rica, a música brasileira é ampla e eu aprecio o samba, o brega, o carimbó e a musica gospel produzida aqui”, cita Virginia, que se tornou evangélica quando chegou ao país.
Ela também é vegetariana e aprecia as nossas frutas, como o bacuri, a graviola e o açaí. “Sou apaixonada por elas, tanto para fazer suco, sorvete, tudo, são muito saborosas e repõem as energias. Confesso que morro de saudade de tomar mate e comer alfajor, um doce maravilhoso que é algo que todo mundo tem que conhecer e provar”, frisa a argentina.
Quando o assunto é bebida, Patrick lembra que o mate é companheiro inseparável dos argentinos. “Os portenhos vivem com a cuia e a garrafa térmica, tomam muito chimarrão. Eu prefiro as empanadas, espécie de pastéis que são como o tacacá paraense, pode se encontrar em qualquer esquina nos cafés espalhados em bairros chiques e populares”, conta Patrick, que diz que tomar cafés durante o dia é fundamental para dar uma aquecida estando num pais que passa entre 8 e 9 meses com temperatura média de 12º.
“Também não dá para ir à Argentina e deixar de comer um “Assado” ou Parrilla, como eles se referem ao churrasco de carne. Eles possuem uma tradição em cortes especiais da carne e técnica apurada para expor as peças ao fogo, deixando a refeição uma aventura gastronômica para todos os paladares”, assinala Patrick.
Como passeio indispensável na capital portenha, ele cita idas ao mercado Abasto, a Avenida Corrientes e a Plaza de maio em Santelmo. “No bairro em torno do mercado vivia Carlos Gardel, um dos grandes nomes do Tango, e por ali tem uma boa quantidade de restaurantes peruanos com cardápio bem diversificado. É legal explorar a regão de San Telmo, com vários antiquários e pequenas galerias com lojinhas vendendo antiguidades, além de ir à tradicional feirinha aos domingos”, ensina o brasileiro.
“Eu estive em Buenos Aires há um ano e tive a impressão de que a arquitetura da cidade lembra a Europa. Em maio fui a Madri e vi que realmente a capital argentina é uma cópia sul-americana da capital espanhola. Os prédios, as praças e a composição dos largos seguem uma mesma tendência, além da manutenção dos prédios antigos - com média de 90 anos -, que deixa Buenos Aires com a sensação de uma viagem ao passado”, explica Patrick.
Passear na Casa das Onze Janelas, assistir ao pôr-do-sol, freqüentar a Praça da República e ir ate a Estação Gasômetro são exemplos de passeios que Virginia gosta de fazer na capital paraense. “Quando minha mãe esteve me visitando, levei ela para conhecer vários lugares, e assim como eu ela achou os casarões coloniais da Cidade Velha muito parecidos com os da minha cidade”, conta Virginia, ainda pendurada no trapézio.
Patrick se diz impressionado com a riqueza do design argentino. “A maneira como eles se relacionam com suas tradições pictóricas é bem perceptível em fachadas de lojas e na pintura dos ônibus. O uso de rebuscadas letras e linhas contornando como molduras lembram referências rococó. Some-se a isso o design das mobílias, roupas e tudo mais busca a construção de uma realidade urbana calcada na modernidade vanguardista e tradição não conservadora”, pontua.
O músico diz sentir a necessidade de divulgar a cultura e as boas coisas daqui, agindo como uma espécie de embaixador. “Quando estou longe do Brasil, sinto falta do sorriso sincero das pessoas, sobretudo do povo do Norte e Nordeste. É um tipo de carinho gentil que pouca gente sabe ter. Eu divulgo nossa música e nossa cultura por aonde vou, levo fotos de lugares e pessoas interessantes e comento na esperança que possam vir aqui e gostar também”, acentua Patrick. (Diário do Pará)
22/02/2012 | Retrato em preto e branco da opressão e paranóia
22/02/2012 | Arrastão tem Ivete e Cláudia Leitte juntas no trio
22/02/2012 | Artistas plásticos lançam museu virtual
22/02/2012 | Edgar Castro no projeto "Música de Shopping"
22/02/2012 | Ensaio sobre poema de Poe ganha nova versão
