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Dos campuseiros à Gaby, o DOL conta tudo!

Quarta-Feira, 15/02/2012, 20:03:33 - Atualizado em 15/02/2012, 23:15:48
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Dos campuseiros à Gaby, o DOL conta tudo! (Foto: Divulgação/ Cristiano Sant'Anna)

(Foto: Divulgação/ Cristiano Sant'Anna)

O que você acha dos nerds? Pessoas de óculos fundo de garrafa, magros, antissociais, que falam um dialeto entendido apenas por eles? O estereótipo desse grupo mudou, assim como sua nomenclatura. Hoje eles são geeks, uma gíria americana usada para definir para os entusiastas da tecnologia. O evento mais geek do Brasil aconteceu entre os dias 6 e 12 de fevereiro na cidade de São Paulo. Reuniu a maior concentração de eletroeletrônicos do país, com 76 mil m² ocupados pelos “campuseiros”. Era assim que se intitulavam os participantes da Campus Party 2012.

As camisas de super heróis ou de jogos para computador ainda são forte tendência entre eles. Tênis AllStar ou chinelos de borracha, óculos ou não, lá estava um número satisfatório de geeks. Além deles, alguns simpatizantes da causa. Todos bem-vindos. Deitados em sofás com os pés para cima, estavam em casa.

O evento acontece pela quinta vez no Brasil, mas teve início em 1997 com uma edição espanhola. Hoje o encontro também acontece na Colômbia, no México e nos EUA. Este ano foram 7.500 participantes só em nosso país. O Campus é divido em três zonas. A área expo, a arena e a o camping. Nesse espaço, todos desfrutavam do que mais gostavam. A cereja do bolo? Garantia de boa conexão 24h. Uma conexão de 20 Gbps - o dobro do oferecido no ano passado. Garantia da Telefônica/Vivo, responsável pela estrutura de telecomunicações da Campus Party.

Cada participante era encarregado de levar a própria máquina, e eles não se contentaram com notebooks ou tablets. Televisores de LED 40 polegadas, CPUs artísticas - os chamados cases monstros e tudo mais que melhorasse a performance estava lá. Afinal, eram seis dias e todo esse tempo longe dos gadgets preferidos seria um martírio. Para acomodar as máquinas, mesas quilométricas com tomadas e cabos de conexão em rede.

Tudo pelo social

O que mais se viu na Campus Party foi a sociabilidade. Muito social, todos sociais. O interesse comum criou amizades e compartilhou conhecimento. Multiplicou, quero dizer. A arena era organizada por áreas de debates: robótica, desenvolvimento, software livre, segurança e redes, mídias sociais, artes digitais, jogos, música, astronomia e espaço. Tudo que envolvia o ciberespaço tinha lugar garantido na CP 2012.

Entre eles encontramos nove amigos da capital de Rondônia, Porto Velho, que atravessaram o Brasil com tudo o que tinham. “Somando o de todo mundo, pagamos um dinheirão de excesso de bagagem no aeroporto”, conta Filipe Baraúna, 21 anos, técnico de redes. Com ele, o amigo Victor Pommer, 20 anos, programador. Interromperam as partidas de jogos virtuais para conversar. Novos amigos chegavam, agregavam. “O legal daqui é que enquanto um está montando um projeto, o outro vem e dá uma dica, cada um entende de uma área, aqui a gente junta todo esse povo e produz coisas cada vez melhores”, afirma Victor.

Danilo Strauss, 30 anos, é desenvolvedor e veio de Santa Catarina para o segundo Campus Party do currículo. “Ano passado, desenvolvi um jogo com o pessoal aqui, o Guerra dos Reinos”, conta. O paulista Elzo Brito, 28 anos, professor de tecnologia, é veterano. “Vim em todas as Campus Party e garanto que o melhor acontece de madrugada. Aqui só quem dorme é calouro”, explica, rindo.

E assim foram 24h de bytes e bytes de agitação. O blogueiro Rodolfo Castrezzana, 41 anos, fez a primeira transmissão ao vivo do blog na edição pioneira do evento. “Para mim é um prazer, eu gosto de internet desde os meus 18 anos, mas ainda não tínhamos tudo isso. Mas a idade é relativa, tem uns caras aqui mais velhos que eu e que manjam mais que eu também. A diferença é que a galera nova já nasceu com isso, não sabe mais viver sem”, comenta.


Gritos, bytes e monstros

Durante o dia era possível ouvir gritos de comemoração. O primeiro “aê” começava baixinho, de repente tomava proporções sonoras muito maiores e quando se reparava, todos os campuseiros estavam gritando. “É um movimento orgânico da Campus, mas eu acho que já diminuiu bastante. Na segunda edição eu lembro de ver gente o tempo todo correndo com cadeira e computador na mão, fazendo barulho”, explica Rodolfo.
Passeando mais um pouco, os campuseiros se deparavam com o próprio Homem de Ferro, mais um super-herói dos quadrinhos que chegou aos cinemas. O tamanho era real, 1,84m. E ele até se movimentava. Mas, na verdade, era uma CPU de computador. Alexandre de Souza, 38 anos, analista de suporte e artista plástico nas horas vagas, a obra era dele. “Eu o trouxe dentro de um ‘bauzão’, tento nem saber quanto pesa para não pensar na hora de carregar porque deu um trabalhão para trazer”, conta. Para construir o “Homem de Ferro”, Alexandre precisou de dez meses de trabalho e dois anos de pagamento. “Não tive patrocínio, então precisei pagar tudo eu mesmo, custou cerca de R$ 5 mil”, relata.

Debates

A discussão de conteúdo na Campus é frenética. Fotografia, ciberespaço, segurança na web, projetos, arte, mídias sociais. Tudo, com certeza, foi discutido lá. Martha Gabriela, referência em Marketing Digital, começou citando o filósofo Marshall McLuhan. “Os homens criam as ferramentas. As ferramentas recriam os homens”. Ela debateu o “cibridismo” que se vive hoje, todos estão online e offline ao mesmo tempo em uma linha só. “Vivemos a era do nowismo, o ‘agorismo’, tudo está em tempo real. Socializamos mais, tudo hoje é social”, defende. A internet mudou o way of life do ser humano, a internet móvel mudou muito mais. “Tem 6 bilhões de aparelhos celulares no mundo, estamos mais conectados. Eu não me importo mais de ficar na fila esperando”, exemplifica.

O meio digital também virou espaço para criação. Doutora em Mídias Digitais, Vera Bighetti mostrou a arte generativa feita nos computadores. Uma arte antiga, mas que cresceu com o uso dos softwares. “Na verdade, a arte generativa não precisa ser hi-tech, mas deve ser autônoma. São projetos que se desenvolvem, enquanto se transformam”, explica. Mas para entender melhor, exemplos: The Manual Input Workstation, de Golan Levin e Zachary Lieberman; Apparition, de Klaus Obermaier e Ars Electronica Futurelab.

Som, imagem e educação

A música também teve espaço. E um espaço bem paraense, digamos. Para discutir o som que saiu da periferia para o mundo os rappers, a dupla MV Bill e Emicida e a musa do tecnomelody, Gaby Amarantos. “Pega as informações da internet, um grande bloco de pessoas atrás dessas informações nas redes sociais, junta tudo e essa é a vitrine para divulgar nosso trabalho”, explica Emicida. Gaby Amarantos acredita que o debate é mostra do reconhecimento do movimento independente. “O espaço desse debate é bom, é prova do que estão reconhecendo esse fenômeno que, aliás, é uma prática que usamos no Pará há uns 20 anos”, aponta.

Sobre fotografia, um antagonismo. A fotografia digital, a fotografia analógica  e a lomografia. Ricky Arruda, fotógrafo e fã do aplicativo Instagram – que compartilha e aplica filtros e efeitos em fotos de celular - debateu com o gerente geral das Lojas Lomography Brasil, Bruno Siqueira. Ninguém escolheu um lado, as fotos analógicas e digitais têm lugar no mercado e no gosto das pessoas. “A diferença entre as duas são as experiências. Com a digital, você faz três mil cliques para conseguir um bom, com a analógica você precisa se preocupar mais com cada clique”, diz Bruno. Para Ricky, o celular é um sensor limitado que pode ser bem aproveitado. “Já fiz ensaios com lomos, com digitais, com celular e cada um tem sua beleza. O instagram deu uma característica analógica à fotografia digital, isso é bom porque traz ruídos às fotos limitadas de um celular”, defende.

Essa também foi a primeira edição do espaço EducaParty. Educadores conectados podiam compartilhar as experiências que tiveram ensinando com auxílio da tecnologia. Foram 250 profissionais entre professores de escolas públicas, ONGs e universidades, participando de atividades planejadas para aprimorar o trabalho de quem educa. O objetivo era um só: propor um modelo de educação atualizado ao mundo virtual e atraente aos alunos.

Para defender o assunto, um estudioso da tecnologia educacional, o professor Sugata Mitra foi o convidado. Em 1999, ele realizou uma experiência conhecida como “Hole in the Wall”. O pesquisador colocou um computador com acesso à Internet num buraco de um muro em um local público, em uma favela de Nova Delhi, na Índia. Câmeras escondidas mostraram que as crianças que brincavam próximo ao computador iniciaram um processo de aprendizagem sobre o uso da máquina. “Hoje não precisamos de uma grade curricular para ensinar tecnologia. Precisamos de duas coisas: compreensão e discernimento do certo e do errado. Se conseguirmos ensinar isso às crianças, o trabalho está feito”, diz Sugata.

Essa pontinha da discussão não é nem metade do conhecimento que o Campus Party proporcionou. Entre os destaques estavam Julien Fourgeaud, criador do jogo de celular Angry Birds, o maior sucesso de 2010; Michiu Kaku, o físico que quer desvendar mistérios universais através de cálculos matemáticos; Kul Wadhma, diretor gerente da Wikipedia; Dave Haynes, vice-presidente da SoundCloud e Andreu Veà, presidente da Internet Society.

A Campus Party acabou, mas é claro que as palestras estão disponíveis na internet. Basta acessar www.campus-party.com.br e acampar em frente ao seu computador.
(Gabriela Azevedo/ Especial para o DOL)

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